
- Por: Carlos Pessoa de Aquino
Especial para o BLOGdoGM
No dia 2 de fevereiro, o calendário da memória não se limita a marcar uma ausência: ele convoca uma presença.
- Há datas que não passam — permanecem. E esta é uma delas.
Vital… Antonio Vital do Rego
- Nome que ainda ressoa como voz de tribuna, como verbo firme, como consciência desperta da advocacia brasileira.
Hoje, passados anos desde 02 de fevereiro de 2010, não me dirijo à morte — falo com a vida que ficou.
- A vida que se espraia em cada corredor da nossa Casa, em cada causa justa, em cada advogado que atravessa o pórtico onde gravaste, como um testamento moral, a frase que nos orienta e nos protege:
“Casa dos Advogados e dos Direitos Humanos.”
Ali não está apenas uma inscrição.
Está tua alma.
- Vital foi tribuno por vocação, professor por essência, criminalista por compromisso humano.
Mas, para mim, foi mais: foi referência, paradigma e amizade avoenga, dessas que não se constroem na pressa do tempo, mas na lealdade das lutas compartilhadas, no silêncio cúmplice após as batalhas, no olhar que reconhece o outro sem precisar de palavras.
- Caminhamos juntos nas lides advocatícias como quem caminha em terreno sagrado.
Cada causa, um altar.
- Cada defesa, um ato de fé no ser humano.
Aprendi contigo que a advocacia não se exerce apenas com códigos, mas com coragem moral, com indignação ética e com ternura pelos que sofrem.
Te vi na tribuna — e ali compreendi que a palavra, quando justa, não agride: liberta.
Te vi na política — e ali entendi que o poder só é legítimo quando serve.
Te vi à frente da OAB — e ali percebi que instituições só têm sentido quando protegem pessoas.
A sede que concluíste e entregaste não é apenas concreto e arquitetura.
- É símbolo.
- É abrigo.
- É trincheira civilizatória.
- É farol.

Cada parede ali carrega a marca de tua crença inabalável de que a advocacia existe para defender a dignidade humana, sobretudo quando ela parece esquecida.
- Sinto honra — e digo isso com o peso doce da verdade — por ter-te tido tão próximo na minha jornada.
Honra por ter aprendido contigo que ser advogado é, antes de tudo, ser humanista.
- Que o Direito, sem humanidade, é apenas ruído; e que a justiça, sem compaixão, é apenas formalidade vazia.
Hoje, Vital, a saudade não dói — ela ilumina.
Ela me lembra quem fomos, o que defendemos, e o que jamais podemos trair.
- Enquanto houver um advogado que atravesse aquela Casa com a consciência ereta…
- Enquanto houver um criminalista que veja no réu um ser humano antes de ver o processo…
- Enquanto houver quem acredite que direitos humanos não são concessão, mas fundamento da civilização…
Tu estarás vivo.
- E eu seguirei, com gratidão e afeto, levando comigo a honra de ter caminhado ao teu lado —
- não apenas como colega de profissão,
- mas como amigo,
- como irmão de causas,
- como companheiro de humanidade.

…E é por isso que esta homenagem não se encerra em lembrança pessoal, nem se limita ao afeto de uma amizade que o tempo não dissolveu.
- Ela se projeta como artigo de fé na advocacia, como reflexão pública sobre o legado de um homem que soube unir tribuna, magistério, política e humanidade sem jamais trair a própria consciência.
Vital pertence a uma estirpe rara: a dos juristas que não se escondem atrás do Direito, mas o colocam à frente, como escudo dos vulneráveis e limite dos abusos.
- Sua atuação como deputado federal e estadual jamais se afastou do compromisso essencial com a dignidade da pessoa humana.
Não legislava por vaidade, mas por dever.
Não discursava para aplausos fáceis, mas para despertar consciências.
- Na presidência da OAB/PB, sua marca não foi apenas administrativa — foi civilizatória.
Concluir e entregar a sede da Ordem significou muito mais do que finalizar uma obra física: foi erigir um símbolo.
- Ao inscrever no frontispício “Casa dos Advogados e dos Direitos Humanos”, Vital delimitou, com clareza histórica, o papel institucional da advocacia: não como corporação fechada em si mesma, mas como guardiã da cidadania.
Aquela frase não envelhece.
Ela vigia.
Em tempos de aridez ética, de relativização de direitos e de tentativas recorrentes de silenciar a advocacia, o pensamento de Vital permanece atual, quase profético.

- Ele compreendeu, antes de muitos, que não há democracia sem advogados livres, e que não há advocacia legítima sem compromisso inegociável com os direitos humanos — inclusive, e sobretudo, quando são impopulares.
Como professor, formou gerações não apenas de operadores do Direito, mas de pensadores críticos.
Ensinava com o exemplo.
- Sua aula maior não estava apenas no conteúdo, mas na postura: firme sem ser autoritária, erudita sem ser distante, apaixonada sem perder o rigor.
Era mestre porque acreditava no aluno, e isso deixa marcas eternas.
- Como criminalista, foi referência.
Não porque buscasse notoriedade, mas porque jamais se afastou da dimensão humana do processo penal.
Via no acusado um ser humano inteiro, jamais um número, jamais um estigma.
Sua atuação lembrava a todos nós que defender é um ato de coragem moral, e que o verdadeiro criminalista caminha contra o vento quando a consciência assim exige.
- Nossa história em comum — feita de lutas, debates, convergências e cumplicidades — é parte indissociável da minha própria trajetória.
Caminhar ao teu lado, Vital, foi aprender que a advocacia se constrói no tempo longo, na coerência diária, na fidelidade a princípios que não se negociam, mesmo quando o preço é alto.
Este artigo, portanto, não é apenas memorial. É compromisso renovado.
- Compromisso de seguir defendendo a advocacia como trincheira democrática.
- Compromisso de manter viva a Casa que ajudaste a erguer — não apenas em suas paredes, mas em seu espírito.
- Compromisso de honrar tua memória não com retórica vazia, mas com postura, com resistência, com humanismo ativo.
Vital partiu em 2 de fevereiro de 2010.
Mas há homens que não cabem em datas de falecimento.
Eles permanecem enquanto houver quem lute, quem ensine, quem defenda, quem acredite que o Direito só tem sentido quando serve à vida.
E enquanto possuir forças para advogar, ensinar, escrever e sonhar com uma justiça mais humana,
tu caminharás comigo —
na palavra,
na coragem,
e na honra de ter sido teu amigo.

- Carlos Pessoa de Aquino
Advogado

