
Colagem mostra mapa do Brasil, barras de ouro, área de mineração, e um avião de pequeno porte
Crédito: Daniel Arce/BBC
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Author: Leandro Prazeres
Da BBC News Brasil em Brasília-DF
- O dia 2 de dezembro de 2025 tinha tudo para ser uma terça-feira de rotina para um grupo de agentes da Polícia Federal e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em Boa Vista.
De carro, eles se deslocaram para a Fazenda Timbó, uma pista de pouso para pequenas aeronaves nos arredores da capital de Roraima, para esperar pela chegada de um avião sob monitoramento.
- Mas o clima de aparente normalidade mudou rapidamente quando, em vez de seguir o plano de voo original e pousar na fazenda, o avião alterou a rota e aterrissou no Aeroporto Internacional de Boa Vista.
O movimento chamou atenção dos agentes, e uma equipe foi enviada rapidamente ao aeroporto.
- Ao abordarem a aeronave, a PF e a Anac encontraram o que talvez possa ajudar a esclarecer a mudança repentina de rota:
51 kg de barras de ouro transportadas sem notas fiscais ou outros documentos sobre sua procedência.
- Segundo a PF, a carga foi avaliada naquele momento em R$ 36 milhões — e que, agora, pode ser ainda maior com a disparada no mercado internacional do preço do ouro, que vem batendo recorde atrás de recorde, o que torna o comércio ilegal ainda mais lucrativo e atraente e que pode levar a um aumento desse tipo de atividade criminosa, segundo especialistas.
No depoimento às autoridades, os ocupantes do avião afirmaram à polícia que o ouro havia sido embarcado em Itaituba, no Pará, cidade conhecida como um dos principais entrepostos desse metal precioso extraído de terras indígenas da região.
- Eles também afirmaram que já haviam feito outros voos semelhantes transportando ouro do Pará para Roraima, mas não apontaram quem seriam os donos da carga milionária.
A apreensão chamou ainda mais atenção das autoridades, porque reforçou a percepção de investigadores e especialistas ouvidos pela BBC News Brasil de que se consolidou uma nova rota para escoar ouro clandestino do Brasil rumo ao exterior.

Avião monomotor numa pista de asfalto com barras de ouro em sacos plásticos espalhadas no chão — Reprodução/Justiça Federal de Roraima
Avião que saiu de Itaituba (PA) foi interceptado em Boa Vista (RR) com 51 kg de ouro escondidos a bordo.
- Durante décadas, toneladas de ouro foram extraídas ilegalmente da Terra Indígena Yanomami e enviadas a diversos Estados do Brasil antes de serem exportadas com base em documentos falsos.
Agora, o fluxo parece ter se invertido.
- “Identificamos uma mudança na rota do ouro. Agora, o ouro extraído em outras áreas do país está sendo enviado para Roraima, e o Estado está funcionando como um ponto de passagem para outros países”, disse à BBC News Brasil o delegado da PF Caio Luchini, que atua no combate a crimes ambientais em Roraima.
Dados sobre apreensões de ouro realizadas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) obtidos pela BBC News Brasil são mais um indício deste novo fluxo.
Entre 2024 e 2025, houve um aumento de 368% no volume de ouro apreendido pela PRF nas estradas de Roraima.
Em 2024, foram 22,3 kg. Em 2025, foram 104,5 kg — mas esse valor é provavelmente bem maior, porque não contabiliza as apreensões feitas pela PF em dezembro, como os 51 kg achados no avião em Boa Vista.
- A hipótese investigada por autoridades é de que um aumento de ações contra o comércio ilegal de ouro esteja levando organizações criminosas a tentarem contrabandear o metal pela Venezuela e pela Guiana, passando pela fronteira em Roraima.
Segundo especialistas, os países foram escolhidos pela proximidade, pela fiscalização local menos rigorosa e por Roraima já contar com uma estrutura logística voltada para o transporte clandestino de ouro montada durante a época em que o garimpo na Terra Yanomami funcionava a pleno vapor.

A tradição garimpeira de Roraima
Localizado no extremo-norte do Brasil, o Estado de Roraima ficou conhecido nacional e internacionalmente por atrair garimpeiros de todo o país para atuar, principalmente, na Terra Yanomami, que abriga uma população de aproximadamente 33 mil indígenas.
- Essa atividade é tão forte que um dos principais pontos turísticos da capital Boa Vista é o Monumento do Garimpeiro, uma estátua de concreto com mais de 7 metros de altura e 15 de comprimento erguida na década de 1960 que mostra um homem com uma bateia para homenagear as milhares de pessoas de todo o país que migraram para a região em busca de ouro.
Investigações da PF e do Ministério Público Federal (MPF) apontaram, ao longo dos últimos anos, que parte expressiva do ouro extraído da Terra Yanomami alimentava não só o mercado nacional, mas também o internacional, exportada para países da Europa e da Ásia e para os EUA.
- Para entrar no mercado de forma legal, esse ouro era “esquentado” com emissão de notas fiscais fraudulentas que vinculavam o ouro da terra indígena a permissões de lavra garimpeira emitidas em outros locais.
O ouro era então comercializado no Brasil ou enviado para o exterior.
Nesse processo para “legalizar” o ouro clandestino, segundo a PF e a PRF, o material extraído em Roraima era encaminhado para outros Estados, onde funcionava a estrutura burocrática e logística de organizações criminosas especializadas nisso.
- “Há alguns anos, fizemos diversas operações que identificaram o envio do ouro para São Paulo, Pará e Rondônia, onde era feito o esquentamento por meio da confecção de documentações fraudulentas, deixando o ouro livre para ser comercializado”, diz Luchini.
A mudança na rota do ouro clandestino do Brasil e o novo papel que Roraima passou a desempenhar como porta de saída do país começaram a ser notados por investigadores e por especialistas nos últimos dois anos.
- “Fizemos diversas apreensões de ouro que vinham do Amazonas e de Rondônia, Estados onde existe uma forte presença de garimpos ilegais, além do Pará”, diz à BBC News Brasil o diretor nacional de operações da PRF, Marcus Vinícius de Almeida.
Em agosto de 2025, por exemplo, a PRF realizou a maior apreensão de ouro de sua história ao abordar em Roraima uma caminhonete que trafegava pela rodovia BR-401, que liga Boa Vista às cidades de Normandia e Bonfim, ambas na fronteira com a Guiana.
- Segundo dados do processo ao qual a BBC News Brasil teve acesso, o motorista do veículo, Bruno Mendes de Jesus, estava acompanhado da mulher e do filho de 9 meses de idade.
Ao ser questionado sobre o motivo da viagem, ele teria dito que estava indo de Manaus para Boa Vista para vistoriar uma obra, mas não soube indicar qual seria.

Balança marcando 103,1 quilos em barras de ouro diante de uma parede branca — Crédito: Reprodução/Justiça Federal de Roraima
Balança registra quantidade de ouro apreendida pela PRF em uma operação em Roraima
- Desconfiados, os agentes da PRF vasculharam o veículo e encontraram 205 barras de ouro que totalizavam 103 kg, uma carga avaliada então em R$ 61 milhões.
Os autos do processo apontam que o motorista não revelou a origem e nem o destino da carga.
- Em dezembro de 2025, ele foi condenado a oito anos de prisão por transporte ilegal de matéria-prima da União.
Procurada pela BBC News Brasil, sua defesa não respondeu às questões enviadas.

Mapa mostra, com o uso de flechas, o fluxo do ouro que saía de Roraima e ia para São Paulo e Pará antes de ser enviado para fora do país

Mapa mostra, com o uso de flechas, o fluxo do ouro que sai do Amazonas, Pará e Rondônia em direção a Roraima para depois ir à Guiana e à Venezuela
O que está por trás da nova rota do ouro clandestino?
Mas o que está por trás da mudança no fluxo do ouro clandestino no Brasil?
- Apesar de relatos e estudos recentes apontarem que facções criminosas com atuação nacional estariam atuando em garimpos de ouro, os delegados Caio Luchini e Milena Chaves Coutinho afirmam que ainda não há indícios concretos de que a nova rota do ouro clandestino esteja sendo explorada por grupos como o Comando Vermelho ou o Primeiro Comando da Capital (PCC).
“É preciso aprofundar as investigações que temos em curso, mas, neste momento, seria prematuro afirmar isso”, diz Milena Coutinho.
- Segundo Milena Coutinho, chefe do setor de repressão aos crimes contra os recursos minerais e de poluição da PF, há três motivos principais para a mudança do fluxo do ouro clandestino.
“Houve uma intensificação da repressão ao garimpo na Terra Indígena Yanomami, e isso diminui a extração ilegal nessa região”, diz a delegada.

- “Além disso, houve duas medidas que dificultaram o esquentamento do ouro”.
“A obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica para a compra de ouro de garimpo e o fim da presunção de boa-fé nesse comércio.”
- O aumento da fiscalização mencionado pela delegada aconteceu a partir de 2023, após a deflagração de uma crise humanitária na Terra Indígena Yanomami.
Na época, vieram à tona imagens de crianças, mulheres e idosos yanomamis aparentando subnutrição.
- Lideranças indígenas e agentes do governo afirmavam que o quadro era resultado do avanço do garimpo na região nos anos anteriores.
Segundo eles, os garimpeiros estariam aumentando as áreas desmatadas, afastando a caça, poluindo os rios com mercúrio e ameaçando indígenas que se opunham à extração de ouro.
Gráficos por Caroline Souza e Laís Alegretti, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Brasil

NOTA DO REDATOR DO BLOGdoGM — A paraibana nascida em João Pessoa, mas com raízes familiares em Sapé, Milena Chaves Coutinho, neta de Mariza Chaves, que foi Diretora da Escola de Aplicação “Stella da Cunha Santos”, que funcionava dentro das instalações do Centro de Formação e Treinamento de Professores da outrora “Capital do Abacaxi”, é a Delegada do Departamento de Polícia Federal que coordena essa operação.
- Milena é filha do casal formado por Simone Chaves e Hermanni Coutinho, Tabelião e Escrivão-Chefe do Cartório de Registro Civil de Sapé.
OBS. ESTA MATÉRIA DA BBC DE LONDRES/INGLATERRA/BRASIL CONTINUA NAS PRÓXIMAS POSTAGENS DESTE BLOGdoGM.

