• POR: Chico Pereira (Francisco Pereira da Silva Junior – Cadeira nº 15)

Mas é no jornalismo cultural que Aranha deixa a sua assinatura, especialmente naquilo que ele mais entendia que era a música.

  • Músico por formação clássica, estudante que foi de piano, mas se dedicando ao violão e à guitarra, abduzido que foi pelo rock, cuja vocação poética naturalmente levou-o a juntar-se ao movimento das bandas e dos festivais de música popular que invadiram o país naqueles anos dourados da MPB, da Jovem Guarda, das influências dos Beatles, dos Rollings Stones, Woodstock e mais tarde da Tropicália, movimento que Aranha veio ser arauto na Paraíba.

Participou de todos esses movimentos, como autor e intérprete, organizador e membro de júri.

  • Tudo isso contribuiu para uma consciência e um conhecimento da música popular, transformado em artigos e noticiário na imprensa local, influenciando gerações e dando norte a muita gente que hoje brilha no panorama nacional.

Como apreciador da música popular brasileira, mas não tendo expertise no assunto, tento enxergar e compreender esse fenômeno de forma muito reservada.

  • Mas vejo na música de Aranha uma dimensão, uma qualidade poética e um domínio musical, que apesar de diminuta é de extrema grandeza; e caso tivesse se dedicado com afinco estaria no Panteão nacional ao lado das grandes expressões do passado e do presente.

“Sociedade dos Poetas Putos” é, sem dúvida (para mim, pelo menos), uma obra singular no panorama da MPB brasileira.

  • Quem viver verá um dia esta afirmação.

Merece aqui um registro especial a sua participação no movimento tropicalista, que teve no Nordeste a figura de Jomard Muniz de Brito como carro chefe.

  • Através de Carlos Aranha a Paraíba está diretamente envolvida nesse processo, seja na redação do documento “Inventário do Feudalismo Cultural no Nordeste”, seja da sua participação no encontro acontecido em Recife com as presenças de Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros, e dos paraibanos Raul Córdula e Marcus Vinicius de Andrade.

Aranha contribuindo ao longo do tempo com mais de 50 artigos publicados na imprensa local, merecedor de publicação em livro.

  • Mas não é só na música que perpassa a ação do jornalismo cultural de Aranha.

O Teatro e o Cinema mereceram, durante anos, sua atenção.

  • Certamente sua proximidade com o palco, seja como autor, diretor e ator, grande parte restrita ao Teatro Santa Rosa, e no cinema, uma vocação paraibana desde os anos de 1960 também o contaminou.

Daí suas incursões na tentativa de fazer um cinema pessoal, quase amador, mas identificado com as influências do Neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa.

  • Ou, possivelmente, do cinema paraibano de Linduarte Noronha e Vladimir de Carvalho, naquela época fazendo escola.

Mas não quero aqui me alongar sobre seus feitos.

  • Isto já foi feito quando do seu ingresso nesta Academia de Letras.

Este momento é de pura nostalgia, de saudade e de certa forma de despedida formal como exige o ritual da instituição.

  • Coube-me aceitar o convite do Presidente desta casa, acadêmico Ramalho Leite, para fazer esta oração, já que todos aqui sabem da minha velha e permanente amizade fraternal e irmanada com o inesquecível Carlos Aranha.

Conheci-o, e bem de perto.

  • Convivi com Aranha muitos momentos de alegrias e de tristezas, como tantos dos nossos companheiros que também o conheceram tão próximos quanto eu, alguns bem mais remotamente.

Mas, de certa forma, Aranha me escolheu entre tantos para ser um confidente.

  • Ou talvez melhor: um confessionário onde ele depositava suas angústias, suas intimidades e seus projetos.

Muitas confissões e desabafos que ele sabia que jamais passariam das nossas conversas, grande parte reveladas – ou confessadas – a base de muito whisky, sua bebida predileta.

  • Às vezes passávamos tempos distantes, outras vezes mais próximos.

Tempos e circunstâncias que variavam conforme nossas atividades ou de lugares onde estávamos.

  • Mas creio que o fim do jornalismo impresso contribuiu para desagregar um estilo de vida que juntava pessoas que transitavam na imprensa de forma direta, ou tangencial como era o meu caso, que nunca tive uma militância intensiva.

Outro fator, acredito, foi o deslocamento da cidade histórica para o litoral e para os novos bairros, contribuindo para a desagregação dos tradicionais pontos de encontros e das consagradas formas de socialização.

  • NOTA DO BLOGdoGM – ESTE ARTIGO CONTINUA NAS PRÓXIMAS POSTAGENS… >>>>>>>>>>

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