
- Foto Helia Scheppa/Acervo Revista Continente
Uma das figuras mais inquietas e inventivas da cultura nordestina e um dos principais realizadores do Ciclo do Super-8 do Recife, o filósofo, poeta, cineasta e agitador cultural tinha Mal de Parkinson e Alzheimer.
- O poeta, cineasta, professor, performático, filósofo, crítico e agitador cultural Jomard Muniz de Britto faleceu nesta madrugada, às 03h30 desta segunda-feira (dia 12), aos 89 anos, em decorrência de complicações do Mal de Parkinson.
O velório ocorreu no Cemitério de Santo Amaro e o sepultamento aconteceu às 16h.
- Ele deixa uma obra marcada pela experimentação, pelo inconformismo e pela disposição de desafiar os cânones da cultura brasileira.
Jomard se considerava “um artista marginal” e passou a vida desconfiando das verdades definitivas.
- Não se acomodou às escolas de pensamento, não se curvou à autoridade dos mestres nem aceitou que a cultura pernambucana/paraibana e norte riograndense (potiguar) permanecesse prisioneira de suas tradições.
Preferiu a dúvida à reverência, a ironia à solenidade, a provocação ao silêncio. Sua trajetória atravessou a filosofia, a educação, a poesia e o cinema, sempre com a inquietação de quem acreditava que pensar também era uma maneira de desobedecer.
- Nascido na Rua Imperial, no bairro de São José, filho de Maria Celeste Amorim e José Muniz de Britto, formou-se em Filosofia pela antiga Universidade do Recife (hoje UFPE) e cedo se envolveu com projetos de educação popular, integrando a equipe inicial de Paulo Freire nas experiências de alfabetização de adultos.
Foi uma das figuras mais inquietas e inventivas da cultura nordestina e um dos principais realizadores do Ciclo do Super-8 do Recife-PE, ao lado de Fernando Spencer, Geneton Moraes Neto, Amin Stepple e Paulo Cunha.
A revista Continente publicou um perfil de Jomard Muniz de Britto, escrito por Aristides Oliveira, repassando os principais momentos de sua trajetória. O texto pode ser acessado neste link: https://revistacontinente.com.br/gwm/login?backurl=gwm/news/edit/116 (Basta copiar e colar ou fazer Control_C + Control_V)
- OU, SE PREFERIR, CLIQUE LOGO – DIRETO – NO LINK ABAIXO:
- A estreia literária de Jomard ocorreu em março de 1964, com Contradições do Homem Brasileiro, lançado de modo performático na Rua da Aurora — gesto que já anunciava seu temperamento iconoclasta.
O livro, lido em primeira mão por Paulo Freire, seria retirado das prateleiras após o golpe militar de 1964, e Jomard acabaria preso no Forte das Cinco Pontas e aposentado compulsoriamente aos 27 anos.
- Ainda assim, seguiu produzindo ensaios e livros que se tornariam referência para a crítica cultural brasileira, como Do Modernismo à Bossa Nova, Vanguarda e retaguarda da cultura brasileira, Bordel brasilírico bordel: Antropologia ficcional de nós mesmos, Terceira Aquarela do Brasil, Atentados poéticos, Outros Orfeus e Encontros.
Nos anos 1960 e 1970, Jomard tornou-se um dos primeiros defensores públicos da Tropicália no Nordeste.
- Em 1968, assinou com Aristides Guimarães e Celso Marconi o manifesto “Porque somos e não somos tropicalistas”, considerado o primeiro texto programático do movimento.
Sua atuação intelectual aproximou Caetano Veloso, Glauber Rocha e artistas da Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco, tensionando a cultura oficial do Estado — especialmente o tradicionalismo associado a Gilberto Freyre e, mais tarde, ao Movimento Armorial de Ariano Suassuna.

- Flagrante da exposição Além do Olho Nu, do fotógrafo Antônio David, na Galeria Metropolitana de Arte, no Recife (PE)
NOTA DO REDATOR DO BLOGdoGM – Entre tantas outras amizades artísticas, pós-modernistas, transculturais, aqui na Paraíba, destacam-se Carlos Aranha, Chico Pereira, Políbio Alves, professor Severino Lucena, Suelly Maux Dias, Glória Rabay, Aryll “O Cabelereiro dos Artistas”, Cláudio Paiva, fotógrafo Antônio David, etc, entre tropicalistas, transformistas, mestres e alunos dos cursos de Artes e Comunicação da UFPB, nos antigos DAC e Decom dos anos 1980/1990.
- A partir de 1974, Jomard encontrou no Super-8 uma arma estética e política.
Transformou o formato doméstico em laboratório de experimentação, tornando-se um dos pioneiros do cinema Super-8 no Recife.
- Dirigiu mais de três dezenas de filmes e vídeos, muitos deles verdadeiros “atentados poéticos” audiovisuais.
Entre os mais conhecidos estão Palhaço Degolado (1976), Discurso classe média (1977), Alto nível baixo (1977), Inventário de um feudalismo cultural (1978), Jogos labiais libidinais (1979) e Noturno em Ré(cife) Maior (1981).
- Suas obras misturam crítica social, humor ácido, performance, improviso e uma estética marginal que dialoga com o cinema de invenção brasileiro.

Jomard Muniz de Britto no curta “O palhaço degolado” (1976)
Foto: Arquivo da época, colorizado por IA
- Além da produção artística, Jomard foi professor da UFPB e da UFPE, dirigiu o Departamento de Extensão Cultural da UFPE e a Fundação de Cultura da Cidade do Recife, e recebeu os títulos de cidadão pessoense e natalense.
Sua trajetória foi marcada por uma postura “antiprovincial”, como ele próprio dizia, sempre híbrida, errante e aberta ao risco.
- Provocador, ele além de produzir e atuar em seus próprios filmes, Jomard também percorria espaços culturais para exibir e debater suas películas cinematográficas.
Em O palhaço degolado, ele vocifera contra o patriarcalismo do sociólogo Gilberto Freyre e sobre o projeto estético Armorial de Ariano Suassuna, numa crítica ao pensamento oficial vigente, ao mesmo tempo também que disparava contra as vanguardas nacionais e internacionais.
- Freyre voltaria a ser alvo de Jomard em Inventário de um feudalismo cultural, que ele fez com o grupo teatral Vivencial Diversiones, citando trechos de Sobrados e mocambos e também do dramaturgo e contista Hermilo Borba Filho.
A sexualidade foi uma das preocupações da obra jomardiana, no curtas Infernolento, inspirado na tragédia grega Prometeu acorrentado, considerado o primeiro filme erótico de Pernambuco, com os atores fazendo exercícios corporais ao ar livre próximo à igreja.
- Babalorixá Mário Miranda, Maria Aparecida no Carnaval é definido como um ensaio de androginia.
Já Noturno em Ré(cife) traz o ator e diretor Antonio Cadengue como um vampiro bissexual.
- No filme-poema A flor do lácio é vadia, de Geneton Moraes Neto, sobre o colonialismo cultural, Jomard Muniz de Britto atuou como ator, fazendo uma performance diante das ruínas do Forte Orange, em Itamaracá e Funeral de uma década em brancas nuvens, na qual compara a repressão militar e o vazio cultural da década de 1970 fazendo contraponto com a efervescência dos anos 1960.
Seu trabalho com o super-8 foi importante para uma geração que utilizou câmeras de pequeno formato como instrumento de contestação estética e política.
Uma obra que continua sendo redescoberta.
- Em 2017, a jornalista Fabiana Moraes e o historiador Aristides Oliveira publicaram Jomard Muniz de Britto: Professor em transe, biografia que recupera sua trajetória.
Em novembro de 2025, o 16º Janela Internacional de Cinema do Recife exibiu vários filmes do realizador que passaram por processos de digitalização e preservação.
Foi uma última oportunidade dele ser visto em público e de também apresentar sua produção experimental às novas gerações.
Vida Longa na Eternidade, Meu Mestre…!!!

