
- Por: Carlos Azevedo Filho
- Professor e jornalista

- Ele se declarava cidadão do triângulo das bermudas (PE, PB e RN).
Sempre de camisas florais de manga longa, falava como se estivesse regendo uma orquestra, apesar de ser uma pequena sala de aula no curso de Comunicação Social nos anos 70, na provinciana João Pessoa, cidade careta com nome de homem morto.
- Suas mãos desenhavam no ar a beleza do seu pensamento, sua pop filosofia.
Antes do dom da escrita, ele exercitava a escuta atenta.
- Até a mais estranha bobagem dita pela boca de um iniciante aprendiz de jornalista lhe interessava.
Também sabia da potência do olhar, da voragem do olho que persegue a realidade, do olho mecânico da câmera nervosa de Glauber Rocha ou do olho amador do Super 8.
Do olho do mundo, cego de tanto ver.
- Sempre disse que a memória era uma ilha de edição.
Subvertia até o próprio Tropicalismo, abraçado com Aryl Cabeleireiro, desfilando com um parangolé rasgado no Centro Histórico, nas margens do rio, do rio que corre para o mar.
- Bricolagem era sua brincadeira na cela da fala, que cala, que arma, ama, odeia & rasga, edita.
Ruge uma figura abstrata no vício do verso, na crina do cavalo da canção.
- Na ponta da faca de Lampião, afaga a sua própria pop filosofia.
Nas idas e vindas de um cinema feito de palavra, nas asas de um Paulo Freire um diálogo constante, cortante também.
- Hospedava-se em hotéis modestos, nas margens do centro da cidade.
Nessa cidade chamada João, não sabia dirigir carro, só filmes.
- Pedia um taxi para Viena de Áustria, contornado o Varadouro de Políbio Alves, passando por Recife e chegando em Natal.
Vivia em eterna guerrilha cultural contra o conservadorismo, essa praga que nos infesta até hoje.
- De gilbertos e freyres, de arianos armoriais monárquicos delirantes.

Rasgava o verbo contra as capitanias hereditárias da paixão.
- Por isso foi perseguido pela ditadura, impedido de dar aulas na arcaica Parahyba do Norte, na cidade que tem nome de homem.
Era um triste palhaço degolado que tirava da cartola sua própria cabeça a sorrir socraticamente.
- Uma mágica sem graça, um bobo da corte.
Um homem perigoso, capaz de atentados poéticos.
Ele criava com sua palavra tempos, espaços e abismos.
- No Pavilhão do Chá servia vinho e cerveja.
Eu adorava manejar para ele a câmera VHS com um olhar selvagem inspirado em Glauber Rocha.
- E ele me dava total liberdade para criar em seus eventos, muitas vezes discretamente dirigindo
meu foco para o infinito.
Para ele, o Brasil era um brasilírico bordel decadentemente baironiano, barroco, eletrônico, brega funk e clássico.
- Cartografava as contradições do homem brasileiro ao manejar as tradições contra elas mesmas, como uma faca tomada numa luta de vida e morte.
A palavra moldada como argila, transformada em arte, arte de ser uma máquina de bricolagem na margem de um capitalismo que constrói shoppings no mangue.
- Todos afundamos na lama de um Chico Science, contornamos a cidade através de um viaduto armorial que vai dar na Caxangá, na pata de um siri, na mata fechada do mangue, na aba do chapéu de Nassau, nas franjas de uma nação tropical, no bafo do mangue que insiste em dizer a Caetano que não estamos em novaiorque, mas em recifede, cidade de pontes como palavras que unem pensamentos diferentes.
Pois bem, esse misterioso homem era Jomard Muniz de Britto e foi visto pela última vez nesse dia 12 de outubro, dia de Nossa Senhora negra, dia da criança sem brinquedo.
- Entre o infinito, o sagrado, o profano e o erótico, Jomard subverteu a sala de aula por ser desde os anos 70, antes mesmo desse boom da internet, uma cabeça que não tinha medo de ousar, de sentir e pensar.
Jomard segue vivo em nosso coração de estudante.
- Avante meu mestre da palavra e da paixão, surfista sofista da palavra educação.

NOTA DO REDATOR DO BLOGdoGM – Carlos Azevedo foi sempre um dos primeiros alunos de Jomard Muniz de Britto a chegar bem cedinho da manhã, com as primeiras luzes do Sol nascendo e lançando os vapores matinais das árvores da mata do Campus Universitário no céu da cidade que ainda acordava lentamente para se preparar ao trabalho diário, pegando o busão da extinta Setusa, no início dos anos 1990.
Eu estava lá, e juro que vi tudo isso acontecer, mesmo – de verdade – assim como esse pessoal do Grupo Prefácio, que declamava poemas de Augusto dos Anjos sobre as catacumbas do Cemitério Senhor da Boa Sentença, nos Dias de Todos os Mortos, que alguns chamam de Finados.
Fomos seus aprendizes e hoje rendemos homenagens ao Mestre.
- Nos Tempos, Espaços & Abismos, como diz o título deste testamento antropofágico e apocalíptico, em dias e horas de agonia disruptiva, globalizada e sob a regência das máquinas autoconscientes da Inteligência Artificial.
Assino aqui embaixo.


