
POR: CARLOS PESSOA DE AQUINO
ESPECIAL PARA O BLOGdoGM
Há homens que passam pela história; outros, porém, a escrevem com a tinta rara da inteligência, da sensibilidade e da coragem.
- Ronaldo Cunha Lima pertence a esta última estirpe — a dos que não apenas viveram o seu tempo, mas o transcenderam, deixando marcas indeléveis na memória coletiva e no espírito de um povo.
Se hoje, neste 18 de março, celebraria 90 anos de vida, não é a ausência que se impõe — é a presença que resiste.
- Presença que se irradia na palavra, no gesto, na lembrança, no exemplo.
Porque Ronaldo não foi apenas um homem público; foi uma ideia em movimento, uma consciência desperta, um verbo que jamais se acomodou à banalidade dos dias.
- Nascido em Guarabira, porém, filho dileto de Campina Grande, cidade que amou com devoção quase telúrica, Ronaldo fez da política não um ofício, mas uma extensão de sua alma.

Prefeito por mais de uma vez, vereador, deputado estadual — inclusive enfrentando a dureza da cassação —, deputado federal, senador da República e governador da Paraíba, percorreu todas as instâncias do poder sem jamais abdicar de sua essência: a do humanista que via, no homem, a razão maior de toda ação pública.
- Intelectual de inteligência assombrosa, dotado de raciocínio ágil e penetrante, era desses espíritos raros que pareciam pensar com a velocidade da intuição e a profundidade da filosofia.
Sua cultura era vasta, mas nunca ostentatória; seu saber, generoso; sua palavra, sempre luminosa.
- Mas foi na poesia que Ronaldo se eternizou de modo ainda mais profundo.
Ali, onde a política se encontra com a alma, ele se fez inteiro.
- Autor de inúmeros livros, deixou na literatura um legado que ultrapassa o tempo e as circunstâncias.

E entre suas criações, há um momento emblemático, quase mítico: o célebre Habeas Pinho — peça de rara genialidade, onde o lirismo e o direito se entrelaçam com elegância e ironia, transformando um episódio cotidiano em arte perene, posteriormente transposto para o cinema, como prova da força estética de sua criação.
- Recordo-me, com emoção e honra, de haver participado do jurídico de sua eleição para o Governo do Estado — jornada que não foi apenas política, mas também humana e espiritual.
Durante sua gestão, tive o privilégio de integrar sua equipe como Secretário Adjunto da Justiça, Cidadania e Meio Ambiente, bem como de presidir o Conselho Estadual de Entorpecentes.
- Ali, testemunhei de perto não apenas o governante, mas o homem: sensível às dores alheias, atento às nuances da vida, profundamente comprometido com a dignidade humana.
Ronaldo era carisma em estado puro.
- Sua presença preenchia os ambientes, sua fala cativava, seu riso acolhia.
Havia nele uma luz singular — dessas que não se explicam, apenas se sentem.
- Era, ao mesmo tempo, firme e afetuoso, rigoroso e generoso, político e poeta — síntese rara de razão e sensibilidade.

Pertencia a uma geração de notáveis — uma plêiade de homens que compreendiam a vida pública como missão, e não como oportunidade.
- E, entre eles, Ronaldo destacava-se como figura única, inimitável, singular na sua pluralidade.
Hoje, ao evocarmos seus 90 anos, não celebramos apenas a data que o calendário registra — celebramos a permanência de sua obra, a atualidade de seu pensamento, a eternidade de sua palavra.
- Porque há homens que morrem — e há aqueles que permanecem.
Ronaldo Cunha Lima permanece.
- Permanece na poesia que ainda emociona, na política que ainda inspira, na memória que ainda pulsa, e no coração daqueles que tiveram o privilégio de com ele conviver.
E assim seguirá — não como lembrança distante, mas como presença viva — porque os verdadeiramente grandes não se ausentam: apenas se transformam em eternidade.
Carlos Pessoa de Aquino
Advogado


