Por: Hilton Gouveia
Especial para o BLOGdoGM

A Fonte dos Milagres – um monumento tristemente célebre –, situado no final da Ladeira de São Francisco, no atual Centro Histórico de João Pessoa, registra um caso lendário que relembra uma tragédia de amor impróprio, que envolve uma mulher de vida livre e um Frade franciscano.

  • Ela era uma mulata de corpo esguio, que vivia uma aventura de amor duplo, e que a transformou em vítima da própria história que ela protagonizou.

Corria o ano de 1801.

  • João Pessoa ainda se chamava Cidade de Parahyba do Norte.

Foi quando chegou aqui na Província o Frei José de Jesus Maria Lopes, proveniente de um convento pernambucano.

  • Ele foi encarregado de cobrar os laudêmios de quem morava em áreas do convento de São Francisco que, na época, incluía o perímetro da atual Lagoa do Parque Solon de Lucena.

A bela mulata morava em companhia de uma filha de sete anos, como mãe-solo, cuidando da adolescente sem a presença do pai biológico.

  • Eventualmente, era visitada por um Capoeira brigão, que a defendia, inclusive, de outros pretendentes inoportunos.

NOTA DO REDATOR DO BLOGdoGM – Capoeira é sinônimo de desordeiro, malandro, arruaceiro, espertalhão, muito usado antigamente no linguajar popular local, até o início do Século XX.

  • Frei Maria Lopes apaixonou-se por ela, assim que a ciumeira de sua relação com o Capoeira passou.

Dispensou-lhe as taxas de ocupação do terreno, comprou-lhe mobília tosca e ficou, eventualmente, “arranchado” na tapera de Teresa.

  • Um dia, o frade chegou de supetão e flagrou Teresa com o Capoeira na cama.

O religioso, que vivia armado de facão Parnaíba e chicote, apesar de aparentemente “brabo”, resolveu correr, após levar razoável surra do Capoeira Esmeraldo.

  • Os dias se passaram depois desse incidente, na maior tranquilidade.

O frade, neste ínterim, tentou reconquistar Teresa, enviando-lhe, através da filha dela, algumas patacas de cobre, a fim de agradar ao seu amor (quase) perdido.

  • Também convidou-a para um banho à meia-noite, na Fonte de Santo Antônio, local de reunião de algumas pessoas da cidade, que não dispunham de cacimbas em casa, para cumprir as necessidades domésticas e de higiene.

A moça foi ao encontro do religioso, junto com sua filha menor de idade.

  • O padre chegou acompanhado do escravo João Pedro e do Índio potiguara Inácio.

O frade mandou o índio o escravo imobilizar a mulher dentro de uma moita de unha-de-gato e, em seguida, matou-a com suas próprias mãos.

  • Depois fugiu para o convento e mandou o índio e o escravo tomar aguardente pelas tabernas da Rua da Areia.

No dia seguinte, ao acompanharem a filha de Teresa até o local do crime, dois policiais encontraram o corpo da bela mulata.

  • O frade foi mandado preso para o seu convento de origem em Salvador (BA), a fim de cumprir sentença canônica-religiosa em sua cela de monge, consumindo pão e água como refeição e se penitenciando com um látego de cinco pontas.

O escravo, ao que parece, foi enforcado, conforme os costumes da época.

NOTA DO REDATOR DO BLOGdoGM – Essa prática era comum antes da Lei Áurea, assinada somente em 13 de maio de 1888, ou seja, 87 anos depois da morte de Teresa.

FACÃO PARNAÍBA – O mesmo tipo de facão Gaúcho de 18 polegadas de comprimento, usado pelos churrasqueiros para cortar carne assada na brasa ardente, levada ao fogo em espeto ou grelha.

LÁTEGO – Correia feita de couro de animal, própria para açoitar, chicote com lâminas de metal nas extremidades para cortar a carne do penitente nas costas, usado pela Santa Inquisição, na Idade Média, a fim de extrair confissões à força dos supostos hereges ou acusados de praticar bruxaria, sobretudo mulheres apontadas como feiticeiras.

  • E o índio cumpriu pena de prisão fechada na cela de uma cadeia local.

Hoje, entre as lendas urbanas que contam em João Pessoa, inclui-se a de um padre sem cabeça que perambula pela Ladeira de São Francisco, externando um ar de desespero.

  • No tempo do arcebispo D. José Maria Pires (Episcopado de 1965 a 1995), algumas peregrinações foram feitas para a fonte de Santo Antônio.

Mas, com a Festa das Neves sendo parcialmente deslocada para outras áreas, as visitas diminuíram muito no rumo da fonte onde Teresa foi assassinada.

  • Não se sabe qual foi o destino do Capoeira brigão, incapaz de defender sua amada, mesmo com toda sua suposta valentia já demonstrada anteriormente.

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