HILTON GOUVEIA
ESPECIAL PARA O BLOGdoGM

Josefa Araújo Bostellmann não tinha ainda vinte anos de idade, quando em sua cidade natal – Serra Branca, no Cariri paraibano, a 198 Km de João Pessoa, um avião Hudson-B2, da Força Aérea Brasileira, foi forçado a pousar pertinho da Lagoa do Panati, por causa de uma pane nos motores.

O acidente deu início a um romance que resultou num casa­mento duradouro.

O aparelho transportava militares que iriam garantir as eleições em Sousa, no Sertão, onde os ânimos estavam acirrados entre os adversários políticos.

  • A ocorrência de fogo nos motores contribuiu para a sua queda involuntária que resultou, apenas, em ferimentos no mecânico de bordo, o paranaense Rubens Bostellmann.

Foi aí, numa tarde de 2 de outubro de 1950, que o episódio motivou uma história de amor muito diferente.

  • Os náufragos do ar foram socorridos pelo padre João Marques, que acolheu na Casa Paroquial, passageiros e tri­pulantes da nave avariada.

Rubens, por se encontrar ferido, foi levado para o Recife-PE.

  • Ele tinha um corte profundo nas costas e isto preocupou a todos, inclusive a uma moça que, utilizando a bicicleta da irmã, fora ver de perto o acidente.

Esta moça era Josefa.

  • Rubens retornou curado do Recife, 60 dias após o acidente.

E foi dar um passeio pela festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição.

  • Lá, entre as diversas moças que se encontravam dentro do pavilhão central, Ru­bens notou Josefa.

O jovem sargento da FAB aproximou-se e disse:

• Você acredita em amor à primeira vista?
• Não acredito nem em amor antigo, quanto mais à primeira vista – respondeu.

  • A pergunta serviu para o casal iniciar uma conversa que durou horas.

O mecânico aviador disse a ela que estava hospedado na Casa Paroquial, onde vivia o seu salvador terreno, o padre João Marques.

  • Imediatamente, Josefa reconheceu o acidentado do avião, que ajudara a salvar, juntamente com o padre Marques.

O diálogo prosseguiu animado, com Rubens dirigindo galanteios e Josefa reba­tendo de fininho.

  • Com o namoro já articulado, Rubens passou cinco dias em Serra Branca.

No último dia, quando já ia viajar, ele perguntou a Josefa se poderia vir passar o Natal perto dela.

  • A moça respondeu, sem muito entusiasmo:

“Claro. Se é o padre quem vai lhe hospedar, tudo bem”.

  • A menina fez “bico doce”.

O jovem ficou um pouco triste.

  • Quinze dias depois, já durante o Natal, Rubens retor­nou a Serra Branca.

Josefa ainda não considerava namoro sério aquele relacionamento recente.

  • O Natal passou, sem maiores novidades.

Rubens, estava caindo de amores, porém com medo de se declarar.

  • Josefa, firme como uma rocha, sem dar colher de chá.

Muito vigiada pela família e ainda indecisa, ela respondeu “sim” quando ele indagou se poderia passar as férias em Serra Branca.

  • “Sim”, não: deixou a decisão por conta dele.

É bom citar que Rubens era destacado na Base Aérea da FAB, em Recife.

  • Em janeiro de 1951, ele voltou a Serra Branca, mas teve o cuidado de, antes, pedir permissão ao pai de Josefa, o comerciante Antônio Bezerra de Souza, para conversar com a moça em casa.

Na época, Bezerra era um dos maiores comerciantes do Cariri.

  • O consentimento foi imediato.

“O futuro sogro topou com a cara do futuro genro”, brincava Josefa.

  • Depois desse colóquio com os familiares da futura mu­lher, Rubens fez 13 viagens de teco-teco a Serra Branca.

Ele e Josefa combinaram um código de reconhecimento:

  • O avião dava um rasante sobre a loja do pai da namorada, subia, entrava em parafuso no centro da cidade, depois aterrissava no campo de futebol de Serra Branca, onde atualmente é o campo do Flamengo.

Ele também adotava sobrevoar a cidade até o riacho do Aú, dava rasante em cima da loja e fazia o pouso.

  • Quem primeiro corria ao encontro de Rubens eram o padre João Marques e Josefa.

“A gente ia a pé, pois o campo sempre foi pertinho”, explicava ela.

  • O tempo ia passando assim:

Rubens, apaixonado por sua musa como um cavaleiro medieval; Josefa, com seu entusiasmo contido, para não deixar o amado muito con­vencido.

  • Ela sempre fazia charminho quando o rapaz falava em noivado ou casamento.

Rubens repetia quinzenalmente suas viagens de avião a Serra Branca.

  • Quem primeiro de­nunciava a presença do avião de Rubens sobre Serra Branca era Maria íris, irmã de Josefa, que gritava:

“É o galego, é o galego!”.

  • Era.

Branco, loiro e de olhos azuis, Rubens era o típico descendente de alemães, uma espécie de D. Quixote alado, tentando conquistar o coração da sua Dulcinéa de Tabosa, no centro do Cariri paraibano.

  • Amando sem fazer estardalhaços, e já muito ciosa dos gostos do namorado, Josefa mandava buscar gasolina de avião em Campina Grande.

Não fosse assim, Rubens não teria como retornar para Recife.

  • Com antecedência, ela adquiria 40 litros, em cada viagem.

O galego chegava às 16 horas dos sábados e retornava às oito da manhã dos domingos.

  • Era uma rotina que não agradava a Josefa.

Um dia, ela deu um muxoxo e disse que era melhor ele não vir mais.

  • Rubens ficou desgostoso.

Mesmo assim, o noivado chegou, seis meses após o início do namoro.

O casamento finalmente aconteceu em 2 de maio de 1952, na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, em Serra Branca.

  • Dias depois, o casal foi morar em Recife-PE, onde passou 10 anos.

Também morou 2 anos em Curitiba-PR.

  • Dona Jo­sefa, caririense da gema, estranhou o frio sulista.

Dos seis filhos que nasceram do casal, só estão vivos Luís, Suzana e Roseane.

  • Luís, continua morando em Curitiba.

É comerciante autônomo.

  • Suzana é dentista em Canoinhas, interior de Santa Catarina.

E Roseane trabalha como médica obstetra em Nova Iorque.

  • Josefa teve seis netos, dos três filhos.

Apesar de ter vivido um amor super diferente, Josefa foi a única do lugar a casar assim, de forma inusitada, nos últimos 70 anos.

  • Ela contava que Rubens era um homem muito sério.

“As moças e até mulheres casadas davam em cima, mas ele só tinha olhos para mim”.

“Fui feliz, nos 47 anos de casada. E, durante o namoro, eu nunca soube de outra namorada dele”.

Após uma ausência de mais de 50 anos, o casal re­tornou para Serra Branca.

  • Rubens morreu em 10 de outubro de 1999.

Quatro anos antes, recebeu o título de Cidadão Serrabranquense.

  • Reformou-se como segundo-tenente da Aeronáutica.

Neste período, foi o único desta arma a morar por lá.

  • Qualquer avião que passava por Serra Branca despertava a curiosidade de Josefa.

Ela guardava a foto de um Bombardeiro C-130, que a FAB mandou Rubens buscar nos Estados Unidos.

  • Foi o último avião em que Rubens trabalhou, ora pilotando, ora fazendo a manutenção.

Natural de Rio Negro, no interior do Paraná, Rubens era filho de casal teuto-italiano.

  • Seu pai, Henry Bostellmann era casado com Laura, de cujo sobrenome Josefa não lem­bra.

Numa das vezes em que Rubens chegou a Serra Branca, o rio Aú estava cheio.

  • Ele, então, mostrou suas qualidades de bom nadador: estacionou o avião do outro lado e atraves­sou a nado, para chegar ao caminho da casa da namorada.

“Ele não via obstáculos entre nós. O que aparecesse, ele superava,”, contava a viúva.

  • O pai de Josefa, Antônio Bezerra da Silva, tinha um empório em Serra Branca que seria o precursor dos super­mercados de hoje.

Vendia de café, a açúcar, tecidos, sapatos e ferragens.

  • Ele gostou do genro, por sentir a sinceridade do rapaz.

Dona Josefa, a mãe de Josefa (filha), considerava Rubens como sendo um dos seus filhos.

  • O sotaque sulista de Rubens chamava a atenção.

Em Serra Branca, o pessoal ficava espantado quando o via sorvendo chimarrão.

  • Os familiares de Rubens receberam Josefa sem preconceitos, embora ficassem admira­dos com o seu sotaque nordestino.

Josefa morou por 12 anos na mesma casa em que vivia com o marido.

Passava o tempo a olhar fotos colocadas em molduras, onde Rubens aparece, ora exibindo sua juventude, ora curtindo sua fase de avô.

“O tempo passou, mas eu continuo a pensar no dia em que conheci o meu amor”, lembrava Josefa, falecida com mais de 80 anos de idade.

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