Por Radomécio Leite
Especial para o BLOGdoGM

Há um momento na vida de todo movimento político em que o maior adversário deixa de estar do lado de fora.

  • Ele passa a ocupar a cadeira ao lado.

A história está repleta de exemplos em que o verdadeiro conflito não foi travado contra a oposição, mas entre aqueles que disputavam o direito de suceder um líder e definir os rumos de seu legado.

  • Foi assim na União Soviética após a morte de Lênin.

A rivalidade entre Stálin e Trotsky extrapolou as diferenças ideológicas e tornou-se uma disputa pelo controle da máquina política e pelo monopólio da narrativa revolucionária.

  • Ambos reivindicavam a condição de herdeiros legítimos de Lênin e do movimento bolchevique, mas apenas um conseguiu transformar essa pretensão em poder efetivo.

O desfecho é conhecido:

  • Stálin consolidou sua liderança e Trotsky foi progressivamente isolado, expulso do país e, anos depois, assassinado em exílio no México.

Evidentemente, a disputa pela sucessão de Lênin ocorreu em um regime e em uma época inversamente contrária a realidade atual, e teve consequências incomparavelmente mais graves do que qualquer disputa política em uma democracia contemporânea.

  • Ainda assim, a lógica da sucessão oferece um paralelo interessante com o momento vivido pelo bolsonarismo, mesmo em baixa, arrefecido, e com voluntariedade cada vez menor.

À medida que Jair Bolsonaro enfrenta restrições políticas e jurídicas, a discussão sobre o futuro do bolsonarismo deixou de ser uma hipótese distante.

Ela já começou.

  • E, como costuma acontecer em grupos fortemente personalistas, a disputa não se resume a estratégias eleitorais.

Trata-se de definir quem falará em nome do líder, quem interpretará o seu figurino e quem conduzirá o que resta do bolsonarismo, em vertiginosa queda livre.

  • As divergências entre familiares e aliados revelam exatamente esse processo fraticida.

Não é apenas uma disputa de egos, mas uma disputa de legitimidade.

  • Cada ator procura demonstrar que representa o “verdadeiro bolsonarismo”, enquanto, ao mesmo tempo, procura reduzir o espaço dos concorrentes internos.

A política, afinal, raramente tolera dois herdeiros para o mesmo trono.

Esse fenômeno não é exclusivo da direita nem da esquerda.

  • Acontece sempre que um movimento concentra sua identidade em torno de uma única personalidade.

Enquanto o líder permanece incontestável, as divergências ficam contidas.

  • Quando sua capacidade de arbitrar conflitos diminui, surgem as disputas que antes permaneciam silenciosas.

A oposição costuma imaginar que derrotará um líder apenas pelo confronto direto.

  • A experiência histórica sugere outra conclusão:

Frequentemente, os maiores abalos vêm das fissuras internas.

  • Não porque antigos aliados deixem de compartilhar objetivos comuns, mas porque passam a competir pelo direito de representá-los.

É justamente nesse ponto que a análise histórica se torna útil.

  • Não porque Bolsonaro seja comparável a Stálin ou Trotsky, nem porque o contexto brasileiro tenha qualquer semelhança com o regime soviético daquela época.

Seria um erro histórico e político sustentar tal equivalência.

O paralelo reside exclusivamente na dinâmica da sucessão:

  • Quando um movimento depende fortemente de um líder, a principal batalha tende a ocorrer entre aqueles que reivindicam sua herança.

Talvez essa seja a etapa mais delicada de qualquer projeto político personalista.

  • Afinal, construir uma liderança é difícil.

Sobreviver a ela costuma ser ainda mais.

Radomécio Leite possui formação nas áreas de Direito, Administração de Empresas, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas.

  • Atuação nos segmentos industrial, energias e portos.

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