
Tem dias em que a alegria não chega sozinha. Vem de mãos dadas com uma outra coisa, mais calada, que se senta ao nosso lado à mesa e fica ali, sem pedir licença, o dia inteiro. Vem de mãos dadas com uma outra coisa, mais calada, que se senta ao nosso lado à mesa e fica ali, sem pedir licença, o dia inteiro.
- Hoje foi um desses dias. Meu irmão mais velho, Hilton Souto Maior Neto, completou cinquenta anos. A casa cheia, as mesas com amigos e nossa família. Minhas irmãs, Raquel e Maria Adélia, papeando e rindo daquele jeito que só elas sabem.
O pequeno Davi, que o entendo muito, meu parceiro de aviões, estava lá correndo para um lado e para o outro. E eu, no meio de tudo isso, ria alto e sentia, por baixo do riso, um eco. Quem me conhece de verdade sabe qual é esse eco. Minha Bia sabe.
- Foi ela quem me viu de perto no dia em que completei quarenta e cinco anos. Olhou para mim com aquela sensibilidade dela e perguntou como eu estava. Eu não tinha nada do que reclamar: uma vida construída, profissional e social, filhos excepcionais, tudo o que um homem poderia pedir a Deus. Mas comecei a chorar. E, no meio das lágrimas, disse a ela: “Falta uma coisinha.”
Ela perguntou o que era. A resposta era curta de dizer e comprida de carregar: faltava a ligação do meu pai.
- Porque eu falava com ele todos os dias. Todos os dias. Não era ligação de data comemorativa, não era telefonema de obrigação. Era conversa de rotina, dessas que a gente acha que vai ter para sempre: um processo, uma notícia, uma bobagem, um conselho que eu sequer havia pedido e ele dava do mesmo jeito. Hoje eu daria qualquer coisa por três minutos daquela conversa sem assunto.
Preciso ser honesto. Eu tenho raiva. Não vou fingir aqui que já fiz as pazes com isso. Tenho raiva dessa doença. O Alzheimer não leva a pessoa de uma vez; leva aos poucos, e faz a família assistir. Levou meu pai para uma cama. Silenciou a voz que eu esperava ouvir em cada aniversário. Vai apagando, devagar, as memórias de uma vida inteira de trabalho, de estudo e de retidão. É cruel de um jeito que não tem nome.
Mas hoje, no meio do almoço, aconteceu uma coisa.

- Marcos Neto, com vinte e seis anos, e Isaac, com vinte e dois, chegaram perto de mim e pediram a bênção. Como sempre pedem. Como eu sempre pedi ao meu pai, a vida inteira, até o dia em que ele não pôde mais responder.
Foi ali que entendi a única resposta que eu tenho contra essa doença: o exemplo arrasta. Ninguém ensinou àqueles meninos a pedir a bênção. Eles viram, assim como eu vi. É uma corrente que atravessa três gerações sem precisar de palavra nenhuma, e é justamente a palavra que o Alzheimer veio tomar.
- Se há uma frase gravada em mim, é aquela que ele repetia sem cansar: “Primeiro lugar, o estudo.” Não era cobrança, era bússola. E eu me flagro dizendo a mesma coisa aos meus filhos, com a mesma entonação, quase com a voz dele. A doença calou o homem. Não conseguiu calar a frase.
O Desembargador Marcos Souto Maior nunca vai deixar de ser o meu chefe, o meu líder, o meu maior exemplo. Homem com um tirocínio inigualável, rápido, perspicaz e cirúrgico. A retidão dele, a força dele, o amor que ele nos deu, nada disso está preso naquela cama. O esquecimento não alcança isso.
- Está vivo em mim. Está vivo em Hilton, que hoje completa cinquenta anos. Está vivo em Raquel e em Maria Adélia. Está vivo em Marcos Neto e em Isaaquinho e na pequena Maria Valentina. Está vivo em cada neto que corre pelas casas dos seus quatro filhos, sem saber ainda de quem herdou o jeito de andar.
Hoje é comercialmente e culturalmente Dia dos Pais. Sei que não haverá ligação. Sei que as palavras não virão. Mas sei também que a alma dele sente o nosso amor, mesmo através dessa barreira de silêncio. Por isso sempre que consigo, vou lá no leito e converso sozinho… mas converso.
- Aquela coisinha que me falta no telefone sobra no meu caráter e na minha gratidão, porque foi o senhor que me ensinou a ser quem eu sou.
O senhor está vivo. Hoje e sempre. Dentro de mim.
Bênção, pai.

